Esse "atalho" para desviar do cumprimento de leis e normas não está presente somente na atitude dos moradores do Rio de Janeiro. Metrópoles ou pequenas cidades de todo o Brasil convivem com desvios constantes e têm de pagar um preço por isso. Há um custo enorme para a sociedade gerado pelos desvios das leis. Atravessar fora da faixa, não usar as passarelas, cruzar uma rua de carro com o semáforo vermelho, fazer conversão proibida, ultrapassar em local proibido, dirigir embriagado, exceder a velocidade permitida, são "atalhos" que causam acidentes. O resultado sempre costuma ser um tratamento longo e caro em hospitais, um prejuízo para o Estado e para a pessoa, ou o falecimento da vítima (que nem sempre é vítima, mas causador).
A prática de infrações constantes no trânsito é apenas uma amostra da mentalidade do brasileiro. Ele prefere quase sempre um desvio, uma vantagem, a ter de fazer o que está prescrito. O brasileiro gosta mesmo é de criar suas próprias leis. Cada indivíduo deste país, que deveria ser um cidadão (aquele que vive em um um Estado, gozando de seus direitos civis e políticos), requer para si o direito de legislar. Em certo sentido, isso é até louvável. O filósofo grego Aristóteles afirmou que "cidadão é aquele que participa dos poderes do Estado". No entanto o brasileiro costuma legislar somente em causa própria. Leis que tragam mais segurança ao trânsito são teoricamente boas, desde que não o faça "perder" 20 segundos para chegar ao seu destino, seja a pé ou motorizado. Desviar verbas públicas é um crime terrível, a não ser que ele lucre algo com isso. Os políticos são corruptos e enganadores, mas se ele for um deles ou trabalhar para um "legítimo representante do povo", esse conceito cai por terra.
O Brasil é tido sempre como um país em desenvolvimento, a terra do futuro. Essa esperança de dias melhores para o país do verde e amarelo não se concretizará jamais. A menos que o povo que aqui habita mude seus conceitos e práticas, seremos sempre o país de pessoas que gostam de levar vantagem em tudo. Nossa arte é driblar, no futebol (nem todos, eu sou um perna de pau) e na vida. No último caso, a maioria dos brasileiros tem a ginga de um Neymar. Gostamos de nos gabar por sermos especialistas em dar um jeitinho pra tudo. Afinal, quem nos pega? Que político corrupto vai para a cadeia? Quem, a não ser os otários, perdem pontos na carteira de habilitação? Que habilidade tem o marido para enganar a esposa e vice-versa. Que fantástica percepção temos para molhar a mão de um servidor público, para que ele nos "quebre um galho". A verdade é que, com esses "dribles", com essa ginga, fintamos um país desenvolvido e com cidadania de fato. Deixamos de tê-lo. Preferimos parar na suposta magia do drible a fazer o gol. Os futebolistas do passado, quando o futebol tinha o que se chamava "pontas-de-lança", apelidavam os jogadores dessa função que iam até a linha de fundo, driblavam e fintavam, mas não chegavam ao gol, de ponta-enceradeira. Isso porque eles giravam, giravam e não saiam do lugar. Estes somos nós, como cidadãos brasileiros. Driblamos muito, sem chegar a lugar algum. O que fazemos com frequência é marcar gol contra.

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